Há poucos anos, acreditávamos que certas crises eram acontecimentos raros, quase impossíveis de imaginar. Hoje sabemos que não é assim.

Uma pandemia global. Ondas de calor extremo. Incêndios de grande dimensão. Ciberataques a infraestruturas críticas. Conflitos armados com impacto nas cadeias de abastecimento. Falhas tecnológicas capazes de interromper serviços essenciais em poucos minutos. O que antes parecia excecional passou a fazer parte da realidade.

Vivemos num mundo mais interligado, mais complexo e, em muitos aspetos, mais vulnerável. Um acontecimento que ocorre a milhares de quilómetros pode ter consequências imediatas na nossa vida, na nossa economia e no funcionamento dos serviços de que dependemos. Por isso, a pergunta já não é se enfrentaremos novas emergências complexas. A verdadeira pergunta é outra: estaremos preparados quando elas acontecerem?

Basta olhar para os últimos dias. Na semana passada, um duplo sismo de magnitude 7,2 e 7,5 atingiu a Venezuela, o mais forte no país em mais de um século, com um pesado balanço humano, e, quase em simultâneo, um sismo de magnitude próxima de 7,5 sacudiu o nordeste do Japão. Catástrofes diferentes, com a mesma lição: não podemos evitar todas as crises, mas podemos preparar-nos melhor para lhes responder.

Mas não precisamos de procurar exemplos do outro lado do mundo. No dia 28 de abril de 2025, um apagão deixou Portugal e Espanha sem eletricidade durante horas, no incidente mais grave do sistema elétrico europeu em mais de duas décadas. Pararam comboios, semáforos, comunicações, pagamentos e parte dos serviços de saúde. Não foi um ciberataque nem uma catástrofe natural. Bastou uma falha em cascata para expor o quanto a nossa vida coletiva depende de sistemas que assumimos como garantidos. Os incêndios de 2017, a pandemia de COVID-19 e os verões cada vez mais quentes contam a mesma história: a preparação não é um exercício teórico, é uma condição essencial para proteger vidas. E a saúde é, quase sempre, o primeiro setor onde se tornam visíveis as fragilidades de uma sociedade perante uma emergência.

É aqui que precisamos de ser honestos. A principal fragilidade dos nossos sistemas de saúde já não é, apenas, a falta de recursos. É a falta de preparação para crises que atravessam, ao mesmo tempo, vários setores. Uma vaga de calor é também uma crise hospitalar. Um apagão é também uma crise clínica. Uma pandemia é, simultaneamente, uma crise sanitária, económica e social. E continuamos, demasiadas vezes, a preparar-nos para a próxima crise olhando apenas para a anterior.

Por detrás de cada emergência há sempre pessoas, famílias e comunidades cujas vidas mudam em poucas horas. Para as proteger, pensamos de imediato em hospitais, profissionais de saúde, bombeiros e equipas de proteção civil, e com razão: são eles que estão na linha da frente. Mas a resposta começa muito antes, na forma como formamos os profissionais, na qualidade das infraestruturas, na coordenação entre instituições e na existência de lideranças capazes de decidir sob pressão. A resiliência constrói-se todos os dias.

A pandemia de COVID-19 mostrou-nos a importância da ciência, da investigação e da cooperação internacional. Mas revelou também fragilidades que não devemos esquecer: sistemas pressionados até ao limite, a importância dos dados para apoiar decisões e o papel decisivo da comunicação em momentos de crise. E deixou claro que nenhum setor e nenhum país consegue enfrentar sozinho desafios desta dimensão.

As emergências do século XXI demonstram, no fundo, que a saúde humana, a saúde animal e a saúde ambiental estão profundamente interligadas. É esta a lição central do conceito One Health: não há saúde das pessoas sem a saúde dos ecossistemas que as rodeiam. Preparar o futuro exige, por isso, uma visão integrada, que olhe para estes riscos como partes de um mesmo problema e não como compartimentos separados.

A dimensão do desafio torna-se ainda mais evidente quando olhamos para os números. Estima-se que o verão de 2024, o mais quente alguma vez registado, tenha provocado mais de 62 mil mortes associadas ao calor na Europa. Em Portugal, quase um quarto da população, cerca de 24%, tem hoje 65 ou mais anos, o que faz de nós o segundo país mais envelhecido da União Europeia, com um Serviço Nacional de Saúde sob pressão crescente. São precisamente os mais idosos os mais vulneráveis a ondas de calor, a falhas de energia e à interrupção de cuidados. A resiliência não se mede pelo número de camas disponíveis quando a crise chega. Mede-se pela capacidade de evitar que o sistema entre em rutura.

Traduzir esta visão em prática exige decisões concretas: investir em sistemas de alerta precoce, melhorar a utilização dos dados, reforçar a coordenação entre instituições e apostar na inovação. Mas exige, acima de tudo, investir nas pessoas, porque nenhum sistema será mais forte do que aqueles que o integram.

É por isso que a formação e a investigação assumem uma importância decisiva. As universidades têm a responsabilidade de preparar profissionais capazes de atuar em contextos de elevada incerteza e de produzir o conhecimento que permitirá antecipar riscos e desenvolver as soluções de amanhã. A resiliência começa nas salas de aula, nos laboratórios e nos centros de investigação, muito antes de qualquer emergência chegar.

E exige que mudemos a forma como olhamos para esta despesa. A preparação para emergências não é um custo: é um investimento em segurança, confiança e estabilidade. Cada euro aplicado em prevenção, formação e investigação traduz-se em recursos poupados, vidas protegidas e capacidade de recuperação quando a crise chega. Os países mais resilientes não são os que nunca enfrentam crises, mas os que conseguem antecipá-las melhor, responder mais depressa e recuperar com maior eficácia.

A próxima emergência não nos perguntará se estamos preparados. Limitar-se-á a acontecer. A diferença, essa, será decidida muito antes, pelas escolhas que fizermos hoje e por aquilo que tivermos aprendido com as crises anteriores.

Estes são alguns dos temas que vão ser debatidos amanhã, dia 2 de julho, na CNN Portugal Summit - Resiliência da Saúde perante emergências complexas. Nesta conferência, pretendemos promover uma reflexão estratégica sobre os principais desafios que moldam o futuro da saúde e da resposta a situações de emergência.