O percurso de "Lisbon Noir" é um bom exemplo e uma óptima lição para a vida criativa e industrial do audiovisual português.

O bom exemplo vem da conjugação de condições únicas, confiança extrema e apoio incondicional com que a série foi tratada pela See My Dreams, na produção, Plural, na pós-produção, EMAV, nos meios técnicos e no privilégio de nos proporcionar sermos pioneiros na produção virtual no seu novo estúdio e, claro, TVI e Prime Video na origem e destino desta série.

Começou pelo melhor exemplo com que se pode dar início a qualquer projecto: o investimento na escrita, no tempo de desenvolvimento de uma boa bíblia com um arco narrativo bem pensado e um bom piloto escrito e reescrito antes de se avançar para os restantes guiões. Com os meus co-argumentistas, Nuno Duarte e Marta Pais Lopes, chegámos a versões finais depuradas após muita reescrita, que trouxe a vantagem de facilitar também o planeamento da produção. Mesmo com as melhores condições, as possibilidades nunca são ilimitadas, e a relação entre o que se escreve, o que se planeia, e o que se filma, tem de ser muito rigorosa. Neste caso, o facto de acumular a função de argumentista e realizador ajudou-me a manter esse equilíbrio entre ambição e realismo, recebendo desde o início todo o apoio não só do Piet-Hein e Gabriela Sobral, como durante os longos meses de preparação, rodagem e pós-produção, a incondicional dedicação da Directora de Produção Cristina Andrade.

Quanto à boa lição, é simples: nenhum esforço é desperdiçado. Este piloto foi escrito em 2020 e passou por várias tentativas de montagem financeira e de agregação de parceiros internacionais. Houve momentos em que parecia destinado a ficar na gaveta, como tantos outros projectos que como criadores temos, mas as gavetas também se abrem e o pitch da série persistia em voltar para cima da mesa. Finalmente, em 2024 a perseverança do José Eduardo Moniz e do Piet-Hein que não deixaram de acreditar no projecto, conseguiram trazer a bordo a Prime Video, fundando os alicerces para uma produção que estreou no passado dia 13 de Abril.

Por último, à confiança que foi depositada em mim, retribui com a dedicação máxima para fazer a série com a qualidade esperada e que passou por uma grande ambição de filmar cenas complexas, criar ambientes diferentes com a ajuda da fotografia magnífica do Miguel Manso, e até uma banda sonora como raramente se fez para uma série portuguesa, fruto do génio do maestro e compositor Nuno Côrte-Real que aliou a orquestra à electrónica, num trabalho musical neo-noir único.

Agradecendo o esforço e dedicação de toda a equipa, da rodagem à pós-produção, e o talento e entusiasmo de todo o elenco, acredito que "Lisbon Noir" ficará para a História da produção audiovisual em Portugal.

Nota: Texto escrito segundo a antiga norma ortográfica