Teresa Gião é uma das mais antigas funcionárias da TVI e é ela também a responsável pela Mediateca, a “casa-forte” das imagens da estação de Queluz de Baixo. Aqui, nenhum dia é igual: jornalistas, apresentadores, diretores e até clientes externos requisitam pedidos de imagem deste acervo único. Em entrevista à MC News, Teresa Gião fala sobre o passado da Mediateca, mas sobretudo sobre o futuro.

MC News: O universo digital veio alterar o modo como trabalhamos e, certamente, a Mediateca não foi exceção. O que é que mudou no vosso trabalho?

Teresa Gião: O digital é fascinante, mas há um grande problema para uma estação com 28 anos, que é o facto de o nosso arquivo estar todo em cassete. A partir de 2005, começámos a arquivar, em ficheiros, as peças do Jornal das 8. Mas os desafios do digital são vários. É preciso perceber que o “storage” tem um limite, com a aposta numa maior qualidade e definição da nossa imagem, os ficheiros são mais pesados e ocupam mais espaço.  Por exemplo, enquanto num disco externo de 1TB eu arquivava 71 horas de vídeo em SD, com o vídeo em HD passei a arquivar apenas 30 horas. O problema dos formatos digitais com grande qualidade é o de interferirem com o espaço de armazenamento e com o tráfego, pois é tudo muito mais lento. É verdade que, com as cassetes, tínhamos de as transportar fisicamente. O mundo moderno também nos trouxe grandes desafios, tal como a aprendizagem de novas ferramentas de trabalho que permitem uma acessibilidade aos conteúdos com maior rapidez e eficiência. De qualquer modo, temos todo um arquivo para gerir nestes dois mundos, mas estamos a trabalhar no sentido de acabar com as cassetes.

MC News: Tem ideia de quantas cassetes existem na Mediateca?

TG: A Mediateca tem 588.007 cassetes arquivadas. Temos um arquivo desde 1993 com todos os conteúdos que são produção nossa. Calcular o número de horas é praticamente impossível. Basta pensarmos na quantidade de horas diárias emitidas pelos nossos canais para quantificar as horas que temos em arquivo.

"Há materiais que nunca foram exibidos e que estão guardados. O acervo da TVI é um pouco da história do nosso país, isto é, dos últimos 28 anos de Portugal."

MC News: Com a digitalização continua a haver o risco de se perder material ou isso deixou de acontecer?

TG: Com a quantidade de material que se produz em televisão, é impossível haver “backups” para tudo. É impossível! Porque o arquivo é muito caro. Nem em cassete isso acontecia. Um jornalista, quando saía em reportagem, levava uma cassete, se não gravasse ou se a gravação se estragasse, não havia nada a fazer. Ainda assim, conseguimos aumentar a nossa capacidade de arquivo nos últimos anos. Desde 2020 que começámos a arquivar, na íntegra, todos os programas de informação no DIVA, que é o nosso robot de arquivo. E claro que todos os utilizadores preferem o ficheiro digital.

MC News: Imagino que a mediateca da TVI tenha imagens únicas, que mais nenhum canal tem.

TG: Sim, claro. No caso das grandes reportagens de investigação, por exemplo, há materiais que nunca foram exibidos e que estão guardados. O acervo da TVI é um pouco da história do nosso país, isto é, dos últimos 28 anos de Portugal.

 

MC News: E qualquer pessoa pode solicitar acesso ao arquivo da TVI?

TG: É um arquivo privado do grupo Media Capital, que se destina sobretudo a uso interno. Mas temos clientes externos. Por exemplo, no caso do documentário do Ronaldo que está na Netflix, foram-nos solicitadas várias imagens. Confesso que gostava de poder trabalhar mais esta área dos documentários, mas isso também exige mais meios, é algo intenso. No futuro, o que mais gostava era de ter um website onde cada pessoa pudesse ver, no seu computador, as nossas produções, o nosso banco de imagens e fazer a requisição das mesmas.