O ator Joaquim Horta sobe ao palco do Teatro São Luiz, em Lisboa, com a peça “John Gabriel Borkman”, de Henrik Ibsen. Conhecido do grande público pelos seus trabalhos em várias produções da TVI, Joaquim Horta integra atualmente o elenco da novela “A Protegida”, em emissão na TVI.

Na peça “John Gabriel Borkman”, Joaquim Horta assume um desafio artístico de grande fôlego, sendo simultaneamente ator, encenador e responsável pelo espaço cénico.

Em cena de 29 de janeiro a 08 de fevereiro, a peça mergulha no universo psicológico e moral de uma das personagens mais complexas de Ibsen, explorando temas como ambição, culpa, poder e isolamento. Esta produção reforça a versatilidade de Joaquim Horta e a sua ligação profunda ao teatro, num projeto onde a interpretação e a encenação se cruzam de forma íntima e exigente.

MC News- O que o motivou a escolher “John Gabriel Borkman”, de Ibsen, para este projeto?

Joaquim Horta- Esta personagem é uma personagem movida pela ambição e em nome dessa ambição troca tudo o resto… o amor da sua vida, a família, os amigos, tudo mais. Acho que faz sentido, hoje em dia falar sobre isto, sobre a frieza do coração, acho que infelizmente estamos a viver tempos em que reconhecemos em muitos líderes essa frieza de coração e por isso acho que faz todo o sentido fazer esta peça.

MC News- Como foi o processo de acumular os papéis de ator, encenador e responsável pelo espaço cénico?

JH- Não foi fácil (risos), grandes discussões entre o encenador, o ator e o responsável do espaço cénico. Claro que não é fácil acumular papéis, mas foi necessário. Tinha uma ideia forte sobre o que queria de espaço cénico e em relação a acumular o papel de ator não estava inicialmente previsto, mas tive uma desistência de última hora e tive de agarrar o lugar. Claro que não é fácil conciliar as coisas, mas hoje em dia, felizmente, já temos recursos que nos permitem gravar os ensaios e ir tentando fazer trabalho em casa também para poder analisar as coisas e para poder ter um olhar de fora. Convidei também uma pessoa para me fazer assistência, a Inês Rosado, que é alguém com quem já trabalhei e confio e confio também em todo o grupo que escolhi, portanto, acho que estou bem rodeado e que estamos a fazer um trabalho generoso de nos ajudarmos uns aos outros.

MC News- Que desafios encontrou ao dar corpo a uma personagem tão densa e complexa como John Gabriel Borkman?

JH- Os desafios de lidar com uma personagem tão densa e complexa são muitos e à partida não era minha intenção e acho que também não seria a minha escolha. Acho que há algumas características que tenho que não são benéficas para o personagem, nomeadamente ser mais jovem do que o personagem, ter alguma leveza física, na voz e por aí fora, portanto existe aqui esta luta sempre de tentarmos ser outro, sendo que estamos muito limitados pelo nosso corpo e pela nossa voz, portanto é um desafio grande, acho que é o maior desafio até agora. Vamos ver!

MC News- O público está muito habituado a vê-lo na televisão, nomeadamente na TVI. O que é que muda quando passa do ecrã para o palco?

JH- O público está habituado a ver-me na televisão sim. O que é que muda? Bom, muda muita coisa, nomeadamente o tempo que se tem para pensar antes de tomar decisões, o tempo que se tem para discutir em conjunto e todo esse processo é para mim um enorme prazer. Sou muito feliz durante os ensaios, sou muito feliz a ver atores a trabalhar, sou muito feliz a discutir e a tomar decisões, portante agrada-me. Enquanto ator num projeto de televisão isso está um pouco relegado para segundo plano. Há uma série de contingências que guilhotinam a possibilidade desse tipo de processo.

MC News- Considera que o teatro lhe permite uma liberdade artística diferente da televisão?

JH- Isto vem no seguimento da pergunta anterior. Considero completamente. Acho que tenho uma liberdade de ação, uma liberdade de pensamento, uma liberdade de pensamento crítico que não é possível num projeto de ficção. Os timings são completamente diferentes. Há muito mais liberdade no teatro. Também há uma responsabilidade diferente, que vem com essa liberdade. No entanto, eu divirto-me muito a fazer televisão. Estou muito ciente que as regras são diferentes, mas isso não implica que não me possa divertir também a fazer televisão.

MC News- O que espera que o público leve consigo após assistir a este espetáculo?

JH- O teatro tem esta premissa fantástica – as pessoas que se sentam para ver predispõem-se a acreditar no que vai acontecer e a retirar daquilo que acontece à sua frente algo para a sua vida. Acho que essa predisposição do público quando se senta para ver um espetáculo é super importante. Acho que podemos até não gostar de um espetáculo, mas isso não quer dizer que não levamos algo pelo facto de termos assistido. Aqui há razões que me motivaram a escolher esta peça. Gostava de acreditar que essas razões vão encontrar reflexo no olhar do público.

MC News- Que mensagem deixaria a quem ainda está indeciso em ir ao Teatro São Luiz ver a peça?

JH- Vou deixar aqui uma frase do meu personagem (risos). Há um momento em que ele diz “se tem dúvidas, está perdido à partida”. Portanto, se tiverem dúvidas e deixarem passar o espetáculo, há algo que vão perder claro.

Queria só acrescentar que esta peça foi escrita pelo Henrik Ibsen, tem como base acontecimentos reais, nomeadamente dois episódios de homens de negócios que de alguma forms terão traído a confiança dos seus pares e terão sido condenados por isso. E um deles, depois de cumprir a pena, ter-se-á fechado no seu quarto e nunca mais viu ninguém. E é exatamente dessa maneira que vamos encontrar o John Gabriel Borkman – ele está fechado numa divisão da sua casa e só nesta noite é que ele desce porque acontecimentos inesperados o obrigam a tal. Ele vai confrontar-se com a sua família, com alguns amigos e com o seu passado. 

Gostava também de acrescentar que, quando parto para um processo destes, não vejo com clareza aquilo que vai ser o espetáculo final. Eu gosto de o ir encontrando; gosto deste conceito de encontro, de encontro com os outros atores, de encontro com os outros criadores e, a partir daí, a sala torna-se um lugar onde nós aprendemos juntos, onde podemos experimentar coisas, onde podemos correr riscos, podemos falhar, podemos ser vulneráveis. E é nessas experiências que as ideias iniciais vão caindo e vão aparecendo outras. E eu acredito muito que este diálogo na prática, no fazer, conduz a um espetáculo que eu ambiciono que seja vivo e estimulante para o público. E que ao mesmo tempo possa refletir não só o que me levou a fazer esta peça, mas também aquilo que os outros atores encontram e que os motiva a fazer esta peça. O ideal é que seja um conjunto de sensibilidades e assim certamente que o público irá encontrar reflexo no que está a ver.