Durante anos ouvimos, e bem, que era preciso haver mais mulheres no espaço público. Mais mulheres na política, nos meios de comunicação social, no comentário político. Mulheres com voz própria, independentes e capazes de pensar pela própria cabeça. O "Mulheres às Direitas" nasce também para levar essa ideia a sério: dar voz às mulheres significa aceitar que elas são livres de pensar diferente, inclusive umas das outras.

Todas as semanas sentamo-nos à mesma mesa cinco mulheres que cabem, de formas muito diferentes, naquilo a que convencionámos chamar “direita”. Helena Ferro Gouveia, Liliana Reis, Angélique da Teresa e Patrícia Carvalho têm percursos, sensibilidades e visões políticas diferentes. A mim cabe-me moderar a conversa, embora confesse que, muitas vezes, a parte mais divertida seja deixar de a moderar durante uns minutos. O objetivo nunca foi produzir quatro respostas iguais à mesma pergunta. Quero que discordem, que se interrompam, que desmontem os argumentos umas das outras e que mostrem uma coisa muito simples: não existe uma direita. Existem direitas.

Parece uma evidência, mas o debate público português habituou-se a tratar cada campo político como um bloco homogéneo. À direita há conservadores, liberais, democratas-cristãos e outras sensibilidades, com divergências reais sobre economia, Estado, segurança, costumes ou política internacional. Ainda bem. Depois chegaram os comentários: “E os maridos deixaram?”; “Voltem para a cozinha.” Foi um momento particularmente pedagógico. Depois de décadas a explicar às mulheres que ninguém lhes pode dizer onde devem estar, descobrimos uma exceção: aparentemente, se forem de direita, a cozinha volta a ser uma possibilidade socialmente aceitável. Há qualquer coisa de extraordinariamente irónico em defender a emancipação feminina e ficar incomodado quando uma mulher emancipada usa essa liberdade para pensar de maneira diferente.

É aqui que, para mim, o programa se torna mais interessante do que apenas mais um espaço de comentário político. Uma mulher não tem de ser feminista, conservadora, liberal ou socialista. Não tem de votar à esquerda nem à direita. Não tem sequer de concordar com outras mulheres. A liberdade só é realmente liberdade quando inclui escolhas de que não gostamos. E talvez seja essa a provocação do "Mulheres às Direitas": não estamos ali para provar que as mulheres conseguem concordar, mas que conseguem discordar, com argumentos, humor, às vezes alguma irritação e sem transformar cada divergência numa declaração de guerra.

Por isso, há também um agradecimento a fazer ao Jornal Sol, por ter abraçado este projeto e por nos dar espaço para falar, concordar, discordar e pensar livremente. Dar voz às mulheres também é aceitar que essa voz pode ser de direita. Permitir que seja ouvida e se afirme é contribuir para um espaço público mais plural. É isso que queremos fazer todas as semanas, sentadas à mesma mesa: usar a nossa própria voz.

Rute Sousa

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