Dois anos após o início do programa “A Sentença”, proferidas mais de mil sentenças, a questão mais colocada, a dúvida mais frequente, a pergunta constante continua a ser a mesma.
São casos reais? É ficção?
Eu não sei a resposta.
Sei que revivi uma realidade no caso “Beleza a quanto obrigas”. Corresponde ao episódio 158, transmitido a 10 de setembro de 2024.
No estúdio, eu ocupava a alta tribuna do juiz, que também mereceria o adjetivo de altiva. À minha frente encontrava-se uma jovem que se queixava de um médico cirurgião plástico.
Exatamente como sucedera uns anos antes, num processo bem autêntico, que eu acompanhei.
Aquela mulher alimentava o sonho de participar no Big Brother. Gastou 6600 euros em operações plásticas, na esperança de que a sua nova aparência lhe garantisse a seleção para o programa. Omitiu ao médico que o filho dela aguardava por uma cirurgia num hospital público, numa longa lista de espera. Aquela pequena fortuna era mais do que suficiente para que a criança fosse imediatamente intervencionada numa unidade privada.
Terminadas as várias operações estéticas, a jovem candidatou-se, mas não foi uma das escolhidas para o “reality show”. Compreendeu que a aparência não era fator levado em consideração.
Então, exigiu que o médico lhe devolvesse o dinheiro que tinha despendido.
O único argumento era singelo. Desde o início, ela tinha informado a clínica de que a sua finalidade era ingressar na casa mais vigiada. O objetivo não tinha sido alcançado.
A situação verdadeira passou-se com um dos mais prestigiados cirurgiões plásticos lisboetas. Ele próprio filho de um cirurgião plástico. E também casado com uma colega de profissão com quem exerce a sua prática clínica. Os dois com um filho igualmente dedicado às operações estéticas. Todos baptistas de novas belezas.
Compreendo bem por que se diz que, tantas vezes, a realidade ultrapassa a ficção.
É que os guionistas, os criadores de estórias, os autores das novelas, os argumentistas das séries são obcecados pela verosimilhança. A ver semelhança. A semelhança com a verdade.
Querem tanto aproximar-se da verdade que evitam o absurdo. Rejeitam o incrível, o disparatado, o inaudito, a incoerência, o inacreditável, a inconsistência, o que não faz sentido e não bate certo.
Mas o absurdo existe na realidade.
É o que acontece nos tribunais de todo o país. E o que ocorre no estúdio do programa concebido, liderado e apresentado por João Patrício.
Com a mesma (i)lógica de quem, por engano, constrói a sua casa no terreno do vizinho em vez de a edificar na sua propriedade: “Troca por troca”, episódio 235, transmitido a 4 de novembro de 2024.
No momento em que se celebra o 2.º aniversário d”A Sentença”, fica o desafio. De segunda-feira a sábado, decidam qual é o caso mais insólito do dia.