As férias chegam quase sempre acompanhadas de uma lista de planos: viajar, descansar, aproveitar a família, conhecer novos lugares ou simplesmente dormir até mais tarde.

Mas e se este verão lhe propusesse um desafio diferente?

E se aproveitasse esta pausa para fazer algo que raramente consegue durante o resto do ano: ouvir-se verdadeiramente?

Vivemos a um ritmo acelerado.

Entre o trabalho, a família, as responsabilidades e as constantes solicitações do dia a dia, habituámo-nos a responder às necessidades de todos... menos às nossas.

Corremos tanto que deixámos de nos permitir sentir.

E quando deixamos de sentir, deixamos também de perceber aquilo que o nosso corpo nos tenta dizer.

Curiosamente, é precisamente durante as férias que muitas pessoas descobrem que estão mais cansadas do que imaginavam.

Algumas adoecem nos primeiros dias. Outras apercebem-se de que dormem mal há demasiado tempo, vivem ansiosas ou perderam a energia que antes consideravam natural.

Não é coincidência.

É simplesmente o organismo a aproveitar o primeiro momento de silêncio para finalmente ser ouvido.

O corpo comunica connosco todos os dias.

Primeiro através de pequenos sinais: uma fadiga persistente, dificuldade de concentração, irritabilidade, alterações do sono ou dores aparentemente sem explicação.

Quando esses sinais continuam a ser ignorados, a mensagem torna-se cada vez mais intensa.

Na maioria das vezes, o problema nunca começou no sintoma. Começou muito antes, quando deixámos de escutar.

Talvez o maior presente que as férias lhe possam dar não seja o descanso. Seja a oportunidade de voltar a ouvir o seu corpo.

Costumamos aproveitar o início do ano para estabelecer objetivos e fazer promessas.

Mas talvez as melhores resoluções não aconteçam em janeiro.

Talvez aconteçam precisamente agora, quando existe espaço para pensar, sentir e decidir com mais clareza.

Em vez de definir apenas metas profissionais ou pessoais, experimente fazer perguntas diferentes.

Como está verdadeiramente a minha saúde?

O meu corpo tem energia... ou apenas sobrevive ao ritmo que lhe imponho?

Durmo para descansar... ou apenas porque o dia terminou?

Há quanto tempo não faço algo apenas porque me faz bem?

As minhas escolhas de hoje aproximam-me da pessoa saudável que quero ser daqui a dez ou vinte anos?

São perguntas simples.

Mas as respostas podem mudar profundamente a forma como escolhe viver.

A ciência demonstra que o nosso estilo de vida influencia diariamente a forma como os genes se expressam.

A alimentação, o exercício físico, a qualidade do sono, a gestão do stress, as relações que cultivamos e até a forma como recuperamos do desgaste diário enviam sinais constantes ao nosso organismo.

Todos estes fatores moldam a nossa epigenética e podem favorecer mecanismos de proteção, regeneração e equilíbrio ou, pelo contrário, contribuir para inflamação, envelhecimento acelerado e doença.

É precisamente por isso que a longevidade saudável não depende de decisões radicais.

Depende da consistência.

Das pequenas escolhas que repetimos todos os dias.

Dormir um pouco mais cedo.

Voltar a caminhar.

Respirar antes de reagir.

Alimentar o corpo com mais consciência.

Reservar tempo para quem mais gosta.

Pedir ajuda antes que o corpo tenha de a pedir por si.

Porque a verdadeira prevenção não começa quando surge a doença.

Começa muito antes, nas decisões aparentemente pequenas que tomamos todos os dias.

Quando terminar as férias, provavelmente voltará à rotina.

Os horários estarão à sua espera.

O trabalho também.

As responsabilidades não desaparecerão.

Mas há algo que pode regressar diferente: a forma como escolhe cuidar de si.

Espero que traga fotografias bonitas, boas memórias e momentos felizes com quem mais gosta.

Mas, acima de tudo, espero que traga uma decisão.

A decisão de cuidar mais de si.

De ouvir o seu corpo antes que ele precise de gritar.

Porque a saúde não muda num consultório.

Muda nas escolhas que faz todos os dias, quando ninguém está a ver.

E gostava de terminar com uma reflexão para levar consigo neste regresso:

Daqui a dez anos, acredita que o seu "eu" do futuro lhe agradecerá pelas escolhas que fez neste verão?

 

Por Sónia Chagas Ratinho

Especialista em Longevidade Saudável & CEO da EQA Medicina Integrativa