Quando é preciso agir, as vontades conjugam-se. Nuno Castilho de Matos, diretor de Informação da Media Capital Rádios, conta que “o esforço grande e a muita dedicação das equipas” permitiu que a rádio fosse montada numa semana, com conteúdos e informações que têm feito a diferença. Duas semanas depois de as emissões terem iniciado chegam a “milhares de ouvintes”, em Portugal e no mundo.

MC News: Como surgiu a ideia de fazer uma rádio para apoiar os refugiados ucranianos?

Nuno Castilho de Matos: Partimos de uma vontade grande em ajudar as pessoas que estão a fugir de uma guerra. Foram levantadas várias hipóteses de como ajudar e ouvimos entidades envolvidas nos processos. Acabámos por perceber que devíamos fazer o que fazemos melhor: comunicar, unir pessoas… fazer rádio. Na Media Capital Rádios temos um grande número de rádios digitais e, por isso, já estávamos preparados para fazer uma rádio online – estamos, a meu ver, muito avançados nessa área. No espaço de uma semana conseguimos ter a Rádio Comercial Ucrânia pronta, o que implicou um esforço grande e muita dedicação das equipas integradas neste projeto.

MC News: Quem faz a programação e escolhe a música?

Nuno Castilho de Matos: A equipa de programação da Comercial fez o trabalho de pesquisa das músicas, mas com uma ajuda enorme de elementos da comunidade ucraniana que nos ajudaram a perceber o significado das músicas e quem eram os artistas. Este é um espaço para a família, de acolhimento, as músicas não podem apelar à violência, têm de ser adequadas a crianças. A Viktoriya Starchenko que, com o Marcos Fernandes, coordenador da rádio, faz a locução das Manhãs da Rádio Comercial Ucrânia, também dá o seu contributo nesta escolha. Aliás, a Viktoriya apareceu no nosso caminho de uma forma incrível: cinco dias antes de arrancarmos com a emissão, quando estávamos à procura de uma pessoa que falasse português e ucraniano e estivesse à vontade dentro de um estúdio. 

MC News: Quer partilhar como chegou a Viktoriya Strachenko a esta rádio?

Nuno Castilho de Matos: Enviou um e-mail com um currículo para a Rádio Comercial na sexta-feira, dia 11 – arrancámos no dia 16 – e no sábado de manhã eu estava a ligar-lhe. Foi ouro sobre azul porque a Viktoriya já tinha experiência em media e cumpre os requisitos que pretendíamos: boa comunicadora, sabe como o meio funciona, sabe fazer produção e está muito bem integrada nas instituições e associações que envolvem a comunidade ucraniana. Contamos ainda com o apoio do Ireneu Teixeira, jornalista com grande conhecimento daquela zona da Europa e que nos ajuda, todas as manhãs, a contextualizar os acontecimentos. Aliás, a mulher do Ireneu, a Nadiia, que é ucraniana, deu-nos uma grande ajuda na fase inicial ao traduzir textos e a gravar as primeiras informações úteis em ucraniano para podermos passar na rádio. Temos tido também a ajuda de muitas pessoas que se têm voluntariado, nomeadamente psicólogos, juristas ou advogados ucranianos para podermos transmitir informações específicas na rádio.

MC News: Têm chegado muitas ofertas de ajuda?

Nuno Castilho de Matos: Tem sido até difícil gerir o número de mensagens e e-mails, diria que temos recebido milhares. Sentimos que o nosso objetivo está a ser bem cumprido, com muito espírito de entreajuda, com muita vontade para podermos disponibilizar a quem chega o conforto de ouvir a sua língua e a sua música e transmitir informação útil para que conheça os procedimentos, mas também se sinta integrado. Há uns dias, por exemplo, recebemos a mensagem de um condutor de um TVDE que tinha ido “apanhar” uma família e percebeu que eram ucranianos recém-chegados a Portugal. Pôs a tocar a Rádio Comercial Ucrânia, as pessoas ficaram com um brilho nos olhos e começaram a cantar as músicas. São situações que nos sensibilizam e que nos fazem querer fazer cada vez melhor.

MC News: Que balanço faz destas duas semanas de emissão?

Nuno Castilho de Matos: Um balanço muito acima das expectativas. Se conseguíssemos ajudar uma pessoa, já era muito positivo, mas temos tido milhares de ouvintes. Como é digital, pode ser ouvida em qualquer parte do mundo.

MC News: Por onde está a ser ouvida?

Nuno Castilho de Matos: Em vários países da Europa, nomeadamente nos que estão a receber refugiados. Também na Ucrânia e mesmo na Rússia. E em países de outros continentes: Estados Unidos, Brasil, Canadá, Angola, Nigéria, África do Sul, Índia, Vietname, Indonésia, Malásia, Japão, México.... É absolutamente incrível.

MC News: Como explica esta divulgação mundial do projeto?

Nuno Castilho de Matos: A comunidade ucraniana vai passando a mensagem para os outros países e também já foi notícia no estrangeiro. Temos recebido muitas mensagens de pessoas muito sensibilizadas com o trabalho que temos feito ao longo destas semanas – e são só duas semanas. Também temos tido feedback de caravanas que vão buscar refugiados à fronteira com a Ucrânia e que têm tido a preocupação de ligar a rádio para os acompanhar ao longo da viagem.

MC News: Qual é a programação da rádio?

Nuno Castilho de Matos: Temos um programa da manhã em direto, entre as 8h00 e as 11h00, com rubricas e entrevistas (em ucraniano e português), com temas úteis para quem veio para Portugal. Neste momento em que falamos, a equipa está a entrevistar o Salvador Sobral, que ganhou o festival da Eurovisão em Kiev e é adorado pelos ucranianos – aliás, fez uma versão de uma música ucraniana para o Instagram que foi a escolhida para abrir esta rádio. Também já colocámos no ar rubricas de resposta a questões jurídicas, de apoio psicológico, de aprendizagem básica de ucraniano-português para que quem chegue consiga dizer algumas palavras essenciais no dia a dia. E no início desta semana arrancámos com um podcast que reúne todos estes conteúdos para quem não conseguiu ouvir a emissão. Todos os dias temos ideias novas!