Agora que voltou à rotina, não volte a abandonar-se.
Durante as férias prometemos muitas coisas a nós próprios.
Que vamos caminhar mais.
Que vamos dormir melhor.
Que vamos desligar o telemóvel mais vezes.
Que vamos passar mais tempo com a família.
Que este ano vai ser diferente.
O problema é que, quando regressamos à rotina, somos quase sempre a primeira pessoa que voltamos a deixar para trás.
As agendas voltam a encher-se. O despertador toca mais cedo.
As reuniões regressam. As notificações multiplicam-se.
E, quase sem nos apercebermos, voltamos exatamente aos hábitos que nos deixaram exaustos antes mesmo de começarem as férias.
Mas... e se este ano fosse diferente?
E se, em vez de regressar apenas ao trabalho, regressasse também com um compromisso consigo?
Há uma ideia que gostava que levasse consigo.
Não é o regresso ao trabalho que nos rouba a saúde. É o regresso aos velhos hábitos.
Pense por um momento.
Quantas promessas fez durante as férias?
"Vou continuar a caminhar."
"Vou dormir mais cedo."
"Vou cuidar mais de mim."
"Vou desacelerar."
Agora responda com honestidade.
Quantas dessas promessas já ficaram pelo caminho?
Vivemos convencidos de que o problema é a falta de tempo.
Mas será mesmo?
Ou será que, quando a agenda fica cheia, a primeira pessoa que deixa de ter espaço é sempre a mesma?
Você.
E essa talvez seja uma das maiores ironias da vida moderna.
Cuidamos da carreira. Cuidamos da casa. Cuidamos da família.
Cumprimos horários. Respondemos a todos.
Mas vamos adiando, semana após semana, a única pessoa que estará connosco até ao último dia da nossa vida.
O nosso corpo.
O nosso corpo não distingue agosto de setembro.
As nossas células não sabem se está de férias ou se voltou ao trabalho.
Não sabem se a agenda está cheia.
Não sabem se existe uma reunião importante.
Elas apenas recebem informação.
Todos os dias. A cada refeição.
Cada noite de sono.
Cada momento de movimento.
Cada situação de stress.
Cada momento de recuperação.
É esta linguagem silenciosa que as células compreendem.
E é esta soma de escolhas, repetidas ao longo dos meses e dos anos, que molda a nossa saúde.
Hoje sabemos, através da ciência da epigenética, que a genética pode representar uma predisposição, mas raramente representa um destino.
O ambiente em que vivem as nossas células, a forma como dormimos, aquilo que comemos, a atividade física que fazemos, a maneira como gerimos o stress e até a qualidade das nossas relações influenciam diariamente a expressão dos nossos genes.
Por outras palavras, não somos apenas aquilo com que nascemos.
Somos, sobretudo, aquilo que escolhemos fazer repetidamente.
Talvez tenha sido precisamente isso que descobriu durante as férias.
Talvez tenha percebido que dormia melhor.
Que caminhava mais. Que sorria mais.
Que respirava com menos pressa.
Que o seu corpo afinal ainda sabe sentir-se bem.
A verdadeira questão é outra.
Vai deixar essa versão de si ficar nas férias?
Ou vai trazê-la consigo para a rotina?
Porque a consciência, por si só, não muda vidas.
Quantas vezes já soube exatamente aquilo que precisava de fazer... e continuou a não fazer?
A diferença entre quem envelhece com saúde e quem passa anos a tentar recuperar a saúde raramente está no conhecimento.
Está na decisão de agir.
Não precisa de mudar tudo amanhã.
Nem precisa de esperar pelo próximo Ano Novo.
Escolha apenas um compromisso consigo.
Um que consiga manter.
Porque não são as decisões extraordinárias que transformam a nossa saúde.
São as pequenas decisões consistentes.
Imagine, por um instante, que podia conversar com a pessoa que será daqui a dez anos.
O que acha que ela lhe diria?
"Obrigado por ter começado a cuidar de mim."
Ou...
"Porque esperaste tanto tempo?"
Gostava de terminar com uma última reflexão.
O corpo é o único lugar onde vai viver para sempre.
A pergunta é: está a cuidar dele com a mesma dedicação com que cuida da sua casa, da sua carreira ou das pessoas de quem gosta?
Ou continua a acreditar que ele aguenta sempre mais um pouco?
Porque a saúde não se perde de um dia para o outro.
E também não se recupera de um dia para o outro.
Ambos os caminhos são construídos pelas pequenas escolhas que repetimos todos os dias.
Por Sónia Chagas Ratinho
Naturopata | Especialista em Saúde Integrativa & Pioneira em Terapia de Neuromodulação | Biofeedback